domingo, 9 de novembro de 2008

Extrato de O Primo Basílio





Tinha suspirado!

Tinha beijado o papel devotamente.

Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades.

E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas

Como um corpo ressequido

que se estira num banho lépido.

Sentia um acréscimo de estima por si mesma.

E parecia-lhe que entrava enfim uma existência superiormente interessante.

Onde cada hora tinha o seu intuito diferente.

Cada passo conduzia um êxtase.

E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações.



Eça de Queiroz (1878)

sábado, 8 de novembro de 2008

E quem diria...

Eis aqui, nessa madrugada de domingo, que iniciam-se os trabalhos... hehehe
Blog sem finalidade de colocar palavrinhas bonitas de minha autoria, e sim um pouquinho do que gosto, do que sinto através das palavras de outras pessoas!
Como diz Bethânia "eu não componho, a minha criação é na hora de interpretar, é descobrir a minha autoria"
então ai vai....


Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de TV. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Fragmento do texto Disco Voador de Fausto Fawcet